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Hemodiálise

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Hemodiálise

Já está disponível no Hospital Veterinário do Porto o serviço de hemodiálise para cães e gatos com problemas renais.

As doenças dos rins e da bexiga são muito frequentes nos animais de estimação. Calcula-se que mais da metade dos animais a partir dos 10 anos apresentem lesões renais e que uma grande percentagem deles venha a sofrer de insuficiência renal crónica.

A Hemodiálise é um dos métodos utilizados no tratamento da insuficiência renal para substituir a função dos rins. As toxinas produzidas naturalmente pelo organismo deveriam ser excretadas pela filtração renal através da urina.

Quando os rins falham a função de depuração, o nível de toxinas orgânicas sobe muito.

A diálise ajuda a remover estas toxinas acumuladas, fazendo o papel de filtração que seria dos rins.

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Hoje falamos com o Dr. Miguel Malheiro, responsável pelo serviço de Hemodiálise do Centro de Hemodiálise Veterinário do Porto (Hospital Veterinário do Porto), para esclarecer algumas dúvidas sobre a Hemodiálise nos animais de estimação.

 

O que é a diálise?

Dr. Miguel Malheiro: O termo “diálise” refere-se ao movimento livre de água e solutos entre duas substâncias, através de uma membrana semipermeável, de acordo com o gradiente de concentração.

 

O que é a hemodiálise?

Dr. Miguel Malheiro: O termo “hemodiálise” refere-se quando a diálise acontece tendo como uma das substâncias o sangue e o dialisante. Simplificando, de um lado da membrana temos o sangue e da outra o dialisante. O sangue encontra-se mais concentrado em determinados solutos (ex. toxinas urémicas, tóxicos, etc.) que o dialisante, e esta diferença de concentração entre as duas substâncias condiciona o movimento destes solutos em direcção ao dialisante, através da membrana semipermeável (dialisador ou hemofiltro). O dialisante rico nestes solutos é eliminado, ficando deste modo o sangue “limpo” e livre dos referidos solutos (habitualmente eliminados pelos rins).

Qual é a diferença entre hemodiálise e Diálise?

Dr. Miguel Malheiro: Não há diferença. Tal como explicado anteriormente, a “hemodiálise” é a “diálise” quando uma das substâncias intervenientes é o sangue.

 

Que animais podem beneficiar da hemodiálise?

Dr. Miguel Malheiro: Em teoria, todo e qualquer animal no qual consigamos um acesso vascular patente e eficiente, ou seja, no qual consigamos tecnicamente colocar um cateter venoso central. Na prática, o factor tamanho é importante, pelo que não é comum (mas não impossível) na medicina veterinária a realização da hemodiálise em animais que pesem menos de 2.5Kg. Há, no entanto, alternativas, como uma outra forma de diálise: a diálise peritoneal. Posto que esta técnica está sobretudo destinada aos cães e gatos, podemos dizer que uma elevada percentagem da população canina e felina portuguesa poderiam beneficiar da hemodiálise.

 

Em que casos é que a hemodiálise é usada na medicina veterinária?

Dr. Miguel Malheiro: A hemodiálise é particularmente utilizada em casos de insuficiência renal (aguda, crónica e “aguda em crónica”) e em casos de intoxicações, constituindo ambos os casos um motivo de consulta relativamente comum dentro da medicina veterinária em Portugal. Para além dos casos mencionados, a hemodiálise, ou melhor, as terapias dialíticas poderão ser utilizadas em casos de insuficiência cardíaca congestiva não responsiva a diuréticos (com recurso à ultrafiltração), casos de sepsis (com recurso a filtros e membranas especiais que removem parcialmente os mediadores inflamatórios), casos de insuficiência hepática (com recurso a técnicas complementares à hemodiálise onde é possível a remoção de toxinas unidas a proteínas) e, mais recentemente, em casos de Miastenia gravis, Síndrome de Guillain-Barre, Síndrome de Hiperviscosidade, Crioglobulinemia, Púrpura trombocítica trombocitopénia, etc. (com recurso à plasmaférese).

 

O que acontece ao animal de estimação durante a sessão de hemodiálise?

Dr. Miguel Malheiro: Inicialmente, é colocado ao cão e/ou gato um cateter venoso central (habitualmente na veia jugular direita). Para este procedimento o animal deverá ser sedado e/ou anestesiado, dependendo do tipo de cateter que vamos colocar (temporário e/ou permanente). O passo seguinte é, simplificando, ligar o cateter à máquina de hemodiálise. O terceiro passo será a sessão de hemodiálise per se, ou seja, o sangue do animal é encaminhado para o dialisador/hemofiltro onde se dá o processo de hemodiálise sendo que de seguida, uma vez “filtrado”, o sangue regressa ao paciente. Para um cão de 25Kg e uma sessão de 4 horas a uma velocidade do sangue de 5ml/kg/min, a totalidade do seu sangue passa pelo dialisador/hemofiltro umas 13 vezes! Terminada a sessão de hemodiálise, o animal é desconectado da máquina e passa para a unidade de cuidados intensivos para ficar em observação durante, pelo menos, 1 hora. Importante referir que, salvo casos excepcionais, o animal encontra-se acordado e pode comer, beber e interromper a sessão para urinar e/ou defecar.

 

Após uma sessão de hemodiálise o animal tem que ficar internado?

Dr. Miguel Malheiro: Depende do motivo pelo qual o animal fez a hemodiálise. Certas intoxicações podem ser resolvidas com apenas 1 sessão de hemodiálise, assim como alguns casos de hipercalémia, etc. No entanto, por precaução, é recomendado que o paciente fique internado para observação. Nos casos de insuficiência renal aguda, mesmo quando não grave, é vulgar programar as sessões de hemodiálise de modo a corrigir a azotémia em 3-5 sessões pelo que o animal fica internado durante esse tempo. Nos casos de insuficiência renal crónica, quando já não é a primeira sessão do animal, este pode ir para casa quase imediatamente após a sessão de hemodiálise.

 

A Hemodiálise pode fazer com que o animal viva mais tempo?

Dr. Miguel Malheiro: Em medicina veterinária a hemodiálise é normalmente utilizada quando as terapias convencionais não são, pelo factor tempo e/ou eficácia, suficientes. Posso afirmar que se em alguns casos a hemodiálise pode fazer com que o animal viva mais tempo, em muitos mais a hemodiálise pode fazer com que o animal VIVA.

 

Quantas vezes é feita a hemodiálise num paciente?

Dr. Miguel Malheiro: Novamente, depende do motivo da hemodiálise. Em alguns casos (algumas intoxicações, hipercalémias severas, ICC não responsiva a diuréticos, etc.), uma única sessão poderá ser suficiente. Nos casos de insuficiência renal aguda, o número de sessões deverá ser o necessário de modo a controlar a azotémia ou até que o rim seja “restaurado” e volte a funcionar com normalidade, que em média ronda as 5 sessões. Nos casos de insuficiência renal crónica, o paciente necessita de hemodiálise intermitentemente para toda a vida ou, caso haja essa possibilidade, até à realização de um transplante renal.

Em que ponto do tratamento da doença renal a hemodiálise é recomendada?

Dr. Miguel Malheiro: A hemodiálise é recomendada em todos e quaisquer casos onde as terapias convencionais não são suficientes para promover a eliminação dos compostos nitrogenados assim como quando é necessário um “repouso absoluto” dos rins para permitir a sua recuperação após um insulto. Nos centros e hospitais que dispõem de hemodiálise, esse recurso é habitualmente usado em casos graves e/ou casos moderados cuja resposta às terapias convencionais é considerada insuficiente ou insatisfatória nas primeiras 24 horas.

 

Quais são as vantagens e desvantagens da hemodiálise?

Dr. Miguel Malheiro: Mais que “vantagens” e “desvantagens”, eu falaria em “benefícios” e “riscos” associados à hemodiálise. Creio que os benefícios já foram mencionados, sendo que o maior é que esta técnica salva vidas. Os riscos são diversos e incluem as complicações técnicas, a hipotensão, a síndrome de desequilíbrio na diálise, a hemorragia, a infecção, etc. Não podemos fugir do amplo rol de riscos associados à hemodiálise mas acredito fortemente que a melhor arma para os combater está no seu precoce reconhecimento e, claro, no domínio da técnica. Para tal é fundamental que quer o responsável quer todo o staff envolvido tenham uma formação adequada.

 

 

Dr. Miguel Malheiro

Licenciado em Medicina Veterinária (2004) pela Universidade Autónoma de Barcelona, Espanha. Trabalhou em hospitais veterinários em Espanha, Portugal e no Reino Unido antes de dar início a um Internship in Small Animal Medicine & Surgery no Small Animal Hospital da Universidade de Glasgow, Escócia, Reino Unido (2008-2009). Actualmente aguarda aprovação do European College of Veterinary Internal Medicine para dar início, em Setembro de 2010,  a uma residência em Medicina Interna.

Participou em diversos congressos nacionais e internacionais como assistente e/ou palestrante, com particular interesse na área da medicina interna.

Desde 2008 desenvolve formação específica na área da hemodiálise veterinária, tendo para o efeito marcado presença em diversas actividades de âmbito teórico e prático no Animal Medical Center (Nova Iorque, EUA, 2009 e 2010) e no Gartnavel General Hospital (hospital de medicina humana, Glasgow, Escócia, Reino Unido, 2009).

Desenvolve a sua actividade profissional exclusivamente na área dos animais de companhia e tem como áreas de interesse a medicina interna, a nefrologia e as terapias dialíticas.

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